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domingo, 30 de dezembro de 2012

Pôr -do- Sol (Cabo da Roca - Oceano Atlântico)


"XII - PRECE"

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, Mensagem

sábado, 29 de dezembro de 2012

Cabo da Roca




"Eis aqui,
 (...)
Onde a terra se acaba e o mar começa 
 (...)
 Esta é a ditosa pátria minha amada,(...)."


Luís de Camões, Os Lusíadas (Canto Terceiro, estrofes 20 - 21)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Cabo da Roca - Mar Português


Cabo da Roca - Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Fernando Pessoa, in Mensagem

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal 2012


Votos de um Santo e Feliz Natal

"Natal"

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !

Fernando Pessoa

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Nevoeiro - Rio Côa - Sabugal


Nevoeiro - Rio Côa - Sabugal

"Nevoeiro"


Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsa distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!

10/12/1928
Valete de Fratres

Mensagem, Fernando Pessoa




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Jardim do Lago - Covilhã







Jardim do Lago - Covilhã


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Marcos CTT - Castelo Branco


Marcos CTT


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa)





quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Outono - Serra da Estrela - Manteigas





"Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta               [...]
  
  5-11-1932"

Fernando Pessoa, O Peso de Haver o Mundo, Obras de Fernando Pessoa, 
Vol I, Lello & Irmão, Porto, 1986,

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Capela da Senhora da Graça - Ovar








Capela de Nossa Senhora da Graça



Segundo uma lenda a primitiva capela foi edificada na sequência do aparecimento no local de uma imagem de Nossa Senhora que, por sua vez, garantiu à ”Villa de Ovar” a graça de se livrar da peste que assolava Portugal.

A primitiva construção, que já existia em 1623, foi substituída entre 1666 a 1668 e reedificada de 1894 a 1899, na sequência da elevação do lastro da rua e consequente sujeição da capela às cheias do rio, tendo sido salvaguardado parte da cantaria e talha do templo seiscentista. Destaca-se no interior a imagem de Nossa Senhora da Graça (século XV), em pedra de Ançã, retábulo-mor maneirista dedicado ao culto Mariano e retábulo lateral, em estilo Nacional, da Ordem Franciscana Secular.
Fonte: www.cm-ovar.pt


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Costa Nova - Ílhavo - Aveiro


Costa Nova - Ílhavo - Aveiro

          "Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças."

Eça de Queiroz, Carta a Oliveira Martins, 1884
.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Janeiro de Baixo


Casas em xisto - Janeiro de Baixo

    ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
(...)
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(...)
Hoje já não faço anos.
(...)
 Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

Álvaro de Campos,(Heterónimo de Fernando Pessoa) 15-10-1929

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Pampilhosa da Serra


Pampilhosa da Serra

"Da mais alta janela da minha casa"

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade...

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão  já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo...


Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), O Guardador de Rebanhos,  

1914