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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Muralha - Castelo de Trancoso


Muralha - Castelo de Trancoso
As origens do castelo de Trancoso remontam aos inícios da castelologia nacional. A primeira referência conhecida data de 960, e consta de um dos mais importantes documentos altimedievais portugueses: a doação de D. Chamôa Rodrigues, ao Mosteiro de Guimarães, de numerosas estruturas (militares e, eventualmente, também civis) que detinha na Beira Interior. Por este documento, é possível perceber que esta faixa de território esteve militarmente organizada logo a partir dos inícios do século X, altura de grande expansão da esfera civilizacional asturiano-leonesa.

Dessa primeira época, conserva-se uma torre, posteriormente adaptada a torre de menagem do castelo. De planta quadrada, silhueta tronco-piramidal e aparelho não-isódomo (ostentando os silhares ranhuras para enquadrar as fiadas superiores), a torre possui uma porta rasgada em arco em ferradura, elemento que confirma a sua cronologia pré-românica (BARROCA, 1990/91 e 2000).

A entrada da Beira Interior na posse da coroa portuguesa, já no século XII, e a importância estratégica desta zona face ao reino de Leão, levou a que muitos castelos raianos fossem objecto de reforma e de actualização. Trancoso não foi excepção, tanto mais tratando-se, nessa altura, de uma das principais localidades da região, a par da Guarda e da Covilhã (GOMES, 1996, p.119).
A construção românica do castelo dotou a antiga torre de uma cintura de muralhas e converteu-a em torre de menagem. Já no século XIII, de acordo com a interpretação de Mário Barroca, esta cerca foi complementada com vários torreões de planta rectangular, o que permitiu o "tiro flanqueado" (BARROCA, 2000, p.225). A estrutura irregular da planta, que se adaptou às condicionantes do terreno, é outra característica que podemos associar ao período românico, embora o esquema oval do castelo possa datar já do reinado de D. Dinis.
É precisamente a este último reinado que se atribui a maior fase construtiva desta fortaleza medieval, na sequência da consolidação fronteiriça proporcionada pelo Tratado de Alcanices. Para além de eventuais obras no castelo, o burgo foi totalmente amuralhado, ao abrigo de um programa reformador do próprio urbanismo da vila. A cerca enquadrou totalmente o casario e as portas foram concebidas como símbolos da autoridade régia e municipal. Ladeadas por maciças torres, as portas de El-Rei e do Prado (as que se conservam) são as mais emblemáticas imagens da cidade.
O interior das muralhas foi, também, alvo de grande reformulação. Mário Barroca chamou-lhe "Urbanismo criado" e estamos, de facto, na presença de um dos melhores exemplos de urbanismo gótico português. As ruas paralelas, de quarteirões regulares (BARROCA, 2000, p.225) revelam a amplitude desse programa, que chegou até aos nossos dias e que, recentemente, tem sido alvo de renovado interesse.
Os séculos seguintes não tiveram o mesmo impacto no castelo e nas muralhas de Trancoso, como os tempos medievais. Existem notícias de obras ao longo dos séculos XIV e XV, facto que confirma a constante preocupação em actualizar os sistemas defensivos da cidade. Na época moderna, Trancoso manteve o seu estatuto de fortificação importante regional, aqui se aquartelando diversos contingentes de soldados, em especial o de William Beresford, em 1809, no contexto das invasões napoleónicas.
Em meados do século XIX, a arruinada capela de Santa Bárbara, no interior do recinto, foi adaptada a paiol, mas tal função nunca chegaria verdadeiramente a efectivar-se. Pela mesma altura, a edilidade começava a desmantelar as muralhas, com vista à utilização de material em obras públicas, como a pavimentação das vias. O período mais grave de destruição ocorreu na viragem para o século XX, altura em que, em nome da modernidade, algumas portas e torres foram destruídas. Invertida a situação, o vasto programa restaurador da DGEMN, iniciado na década de 30, levou à reinvenção de algumas partes entretanto destruídas, como troços de muralha e ameias.
PAF
Fonte: IGESPAR IP/ PATRIMÓNIO

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Neve - Penhas da Saúde - Serra da Estrela

Penhas da Saúde (19.01.2014)

Quando está frio no tempo do frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro
24-10-1917