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domingo, 28 de setembro de 2014

Lambretta - Abrantes


Poema da Auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.

Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.


GEDEÃO, António, "Máquina de Fogo"



sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Rio Cávado - Fão



Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.

9-8-1931
 Fernando Pessoa

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Santuário Bom Jesus de Fão


Santuário Bom Jesus de Fão




Na segunda-feira de pascoela o Bom Jesus de Fão, na margem esquerda do Cávado, é uma romaria com tradição ancestral. A devoção à Paixão de Cristo conheceu enormes desenvolvimentos após o Concilio de Trento, conhecendo-se na diocese de Braga inúmeras igrejas e templos dedicados ao Senhor do Bom Jesus. A devoção ao Senhor de Fão teve início no século XVIII, após a descoberta de uma imagem de Cristo crucificado, no século anterior, junto ao rio, à qual faltava um braço.



 tradição oral indica que, após este achado, uma mulher desta freguesia terá acendido o lume com lenha que entretanto tinha recolhido da praia e verificara que um dos paus não era devorado pelas chamas do fogo. Uma vez retirado do lume, verificou que este pau tinha a forma de um braço associando então este membro à imagem de Cristo entretanto encontrada. Alguns documentos indicam a existência de uma ermida neste preciso local no século XVII, no entanto a construção do templo actual teve lugar entre 1710 e 1724.



Implantado num espaçoso adro rodeado de um muro guarnecido por pilastras encimadas por 32 esferas graníticas, este templo enquadra-se numa ampla alameda composta ainda por um coreto, um cruzeiro e um fontanário. Com planta em forma de cruz latina, detém uma fachada principal composta por um pórtico Renascentista ao qual se sobrepõe um janelão em granito. A torre campanária adoçada à capela-mor por trás do templo, foi construída por volta de 1730. A Imagem do Bom Jesus – Senhor dos Passos – encontra-se no camarim da capela-mor, erguendo-se no transepto o altar do Senhor da Agonia – ou dos Aflitos – e de Nossa Senhora das Angústias. (...)